Morre Thiago de Mello, o poeta do Homem

Thiago de Mello, o maior poeta amazonense, morreu hoje, aos 95 anos. Thiago morreu em casa, em Manaus, mas a causa da morte não foi divulgada.

Nascido em Barreirinha(a 330 km de Manaus), Thiago de Mello teve reconhecimento nacional e internacional, com obras traduzidas para mais de 30 idiomas.

O poema ‘Os Estatutos do Homem’ é um dos mais conhecidos de sua autoria, no qual ele elenca os valores simples e o poder da natureza. O velório de Thiago de Mello será realizado no Palácio Rio Negro.

Foi decretado luto oficial por três dias tanto no estado quanto no município.

Thiago de Mello

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha31 de março de 1926 — Manaus14 de janeiro de 2022) foi um poeta e tradutor brasileiro. É considerado um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.[1]

Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador.

No exílio, morou na Argentina, Chile, PortugalFrançaAlemanha. Com o fim do regime militar, voltou à sua cidade natal, depois mudou-se para Manaus, onde viveu até sua morte.[2]

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. A sua poesia escrita foi Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida que rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar,um prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Em homenagem aos seus 80 anos, completados em 2006, foi lançado pela Karmim o CD comemorativo A Criação do Mundo, contendo poemas que o autor produziu nos últimos 56 anos, declamados por ele próprio e musicados por seu irmão mais novo, Gaudêncio.

Poesia

  • Silêncio e Palavra1951
  • Narciso Cego1952
  • A Lenda da Rosa1956
  • Faz Escuro, mas eu Canto: porque a manhã vai chegar1966
  • Poesia comprometida com a minha e a tua vida1975
  • Os Estatutos do Homem1964
  • Horóscopo para os que estão Vivos1984
  • Mormaço na Floresta1984
  • Vento Geral – Poesia1981
  • Num Campo de Margaridas1986
  • De uma Vez por Todas1996
  • Cantídio, André Provérbios, 1999

Prosa

  • A Estrela da Manhã1968
  • Arte e Ciência de Empinar Papagaio1983
  • Manaus, Amor e Memória1984
  • Amazonas, Pátria da Água1991
  • Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo1992
  • O Povo sabe o que Diz1993
  • Borges na Luz de Borges1993
  • Vamos Festejar de Novo2000

A Carlos Heitor Cony

Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965)

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